sábado, 14 de março de 2015

Piso (e teto) salarial para pastores

Um dos maiores motivos de escândalo para as igrejas na atualidade é a torpe ganância de pastores (ou bispos, “apóstolos”, missionários, etc), homens que se enriquecem no ministério, alcançando altíssimos padrões de vida com o dinheiro de dízimos e ofertas. A opulência desses maus obreiros, adeptos da “teologia” da prosperidade, causa repulsa até nos ímpios, tamanho é o contraste entre as fortunas daqueles e a vida simples e humilde vivida pelo Senhor Jesus enquanto esteve na terra em forma visível de homem. 

Por outro lado, existem outros em situação inversa. São crentes no exercício do ministério pastoral que trabalham intensamente e ganham pouquíssimo, verdadeiros salários de fome, mal tendo condições de prover o sustento de suas famílias. Talvez seja esta a situação da imensa maioria dos pastores missionários espalhados pelos quatro cantos do Brasil, homens vivendo sem férias ou descanso, com horário certo para começar a lida diária (de manhã bem cedo, quase de madrugada), mas sem hora para parar. 

As Escrituras repreendem veementemente quem transforma o ministério em fonte de lucro, movido pelo amor ao dinheiro (conforme 1Timóteo 6:3-10), mas também determinam que haja salário digno para os ministros do Evangelho (ver Lucas 10:7). Por uma questão de bom senso, entendemos ser justo conceder aos pastores um valor mensal suficiente para a provisão das necessidades materiais dele próprio e de seus familiares (alimentação, educação, saúde, transporte, moradia, vestuário, lazer, etc). Todavia, não convém pagar valores astronômicos a alguém em troca do trabalho na seara do Senhor. Sobretudo porque os salários exageradamente altos tornam-se uma cilada para quem os recebe, pois geram corrupção no coração humano. Uma solução razoável seria estipular um piso salarial para pastores, e também um teto salarial. 

Evidentemente, o pastorado não é uma ocupação qualquer. Médicos, engenheiros, operários, professores, advogados ou enfermeiros não terão que prestar contas ao Senhor pelo destino eterno das almas de seus clientes, pacientes, alunos, patrões ou colegas de trabalho, mas os pastores responderão, sim, por cada ovelha que vierem a negligenciar. A proposta de um piso e um teto salarial para os ministros do Evangelho pode inicialmente soar como algo estranho, mas o propósito é garantir a dignidade no exercício ministerial, e ao mesmo tempo coibir a farra dos falsos mestres, marajás da fé, servos de mamom, que tanto envergonham o povo de Deus. 

Naturalmente, o piso e o teto seriam para quem exerce o ministério em tempo integral. Existem muitos pastores trabalhando em profissões seculares oito horas por dia (o que é lícito), e sua dedicação ao pastorado se dá em tempo parcial, em algumas noites durante a semana e aos domingos. São um caso a parte, devem ser remunerados sim, mas não tanto quanto os de dedicação integral. Outro fator importante é que o salário do pastor vem dos dízimos, e algumas congregações são pequenas, outras grandes; umas possuem membros de classes média e alta, enquanto outras são formadas por gente pobre e sem recursos. Logo, o salário do pastor deve ser proporcional ao tamanho da congregação e à renda dos irmãos (levando-se também em conta os anos de exercício ministerial, questões de hierarquia e a formação teológica). 

Como piso, entendemos o seguinte. O pastor exerce um papel de liderança em sua comunidade e deve ser honrado por ela. Isso é bíblico. Sendo assim, deveria receber um valor mínimo correspondente ao dobro da renda média dos membros que trabalham (não da renda familiar, mas da renda pessoal dos trabalhadores assalariados). Por exemplo, numa congregação cujos membros ganham, em média, um salário mínimo e meio, o pastor receberia pelo menos três salários mínimos. Em outra, na qual a renda média é de três salários mínimos, o pastor ganharia não menos do que seis salários mínimos. Se uma congregação é muito pequena, não recebe repasses (de uma matriz, ou Sede) e não possui condições de conceder ao pastor essa remuneração, também não pode exigir que ele se dedique exclusivamente ao ministério. O obreiro precisa então ser liberado para ter sua própria profissão secular, a fim de sustentar a si mesmo e à sua família, e seu tempo semanal de dedicação ao pastorado será menor. 

Para o teto, poderia ser estipulado o valor máximo de oito vezes a renda média dos trabalhadores assalariados da igreja. Tal salário deveria ser reservado exclusivamente aos ministros que atingissem simultaneamente esses três requisitos: 1) ter longa experiência e bons conhecimentos teológicos; 2) pastorear uma congregação numerosa; 3) pastorear uma congregação de pessoas de baixo poder aquisitivo. Por exemplo, imaginemos uma igreja com dois mil membros, a qual demanda imensos esforços e dedicação de seu pastor dirigente, um homem com vinte anos de labor na seara de Cristo. Suponhamos que, nessa congregação específica, a renda média dos irmãos trabalhadores assalariados seja de apenas um salário mínimo. Seria extremamente injusto pagar um valor baixo ao obreiro com tão grandes responsabilidades. A renda mensal de oito salários mínimos lhe garantiria dignidade para exercer suas funções, podendo prover o sustento do seu lar com tranquilidade. 

Ainda no que tange ao teto salarial, seria prudente estipular um valor máximo geral (independente da congregação pastoreada), proporcional à renda média mensal dos trabalhadores brasileiros. Hoje, o brasileiro ganha em média R$1.795,53, segundo o IBGE (conforme o site Portal Brasil). Entendemos ser justo fixar como valor limite para o salário de quem exerce o ministério pastoral o equivalente a seis vezes essa média nacional (atualmente, R$10.773,18). A razão é simples: não é bom que um ministro do Evangelho alcance um padrão de vida absurdamente superior ao do povo que ele próprio se propõe a pastorear. Não mediante o salário recebido de sua igreja. Se o obreiro deseja um ganho maior, que complete sua renda com uma profissão paralela (exemplo: professor universitário, escritor, etc). 

Um piso e um teto. O valor mínimo, estabelecido para evitar que um homem seja explorado por sua própria congregação, trabalhando excessivamente, dedicando-se de corpo e alma à causa do Reino de Deus sem obter uma contraprestação decente. O valor máximo, fixado para coibir a mercantilização da fé, o enriquecimento no exercício do pastorado, a supervalorização de um líder que deveria primar pela humildade e jamais cobiçar os tesouros deste mundo. Esses valores de referência, como não estão determinados em nenhuma lei, seriam observados somente pelas denominações que desejassem fazê-lo. Mas, quem sabe, uma proposta nesse sentido teria a vantagem de levar o povo de Deus a uma reflexão acerca do significado e importância do pastorado. E, ao mesmo tempo, exporia a feiura da avareza, tão comum entre os (maus) pastores. Esta é apenas uma ideia, algo a ser pensado. Que outras ideias surjam, práticas sejam revistas e o Nome do Senhor seja glorificado!

2 comentários:

  1. Não concordo quando o senhor diz que médicos, engenheiros, professores... não terão que prestar contas pelo destino eterno das almas... Teremos Sim! Somos responsáveis pelo nosso semelhante!

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  2. Acho que entendi, irmã Elisângela. Realmente, a responsabilidade é de todos, afinal nossas atitudes atingem outras pessoas (positiva ou negativamente). Talvez eu tenha explicado mal. O que eu quis dizer é que, quando um médico atende um paciente, ou o engenheiro entrega um projeto, ou o professor aplica uma prova de matemática, essas atividades - em situações normais - não farão com que pessoas creiam ou deixem de crer no Evangelho (se bem que, até ali, um crente pode aproveitar a oportunidade e falar do amor de Deus). Já o ministro do Evangelho, durante as pregações, visitas, aconselhamentos, etc, tem o dever de anunciar explicitamente o Evangelho. Se o fizer de modo zeloso, Deus Se agradará. Mas se o fizer negligentemente, negociar a mensagem da salvação, etc, isso atingirá diretamente a vida espiritual dos envolvidos. De qualquer modo, agradeço o comentário. Que Deus a abençoe!

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